OBRAS DO PROFESSOR CARLOS MOTA
Cuidado com as aparências...
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Textos
XVIII

Franceline repele o médico com veemência.

_Eu não te amo mais, Rubens! Deixe-me em paz, por favor! – implora.

_ Não pode ser, não era isso o que me dizia há algumas semanas... Como pode alguém deixar de amar outra em tão pouco tempo? Há algum problema em que possa ajudá-la? Confie em mim, AMOR!

_ Acabou Rubens! Acabou! Assim como a vida, o amor também se esvai! Sinto muito, você é um homem maravilhoso, um príncipe encantado das fábulas infantis...

_ Então, por que me deixas?- pergunta, aflito.

_ O amor acabou! Entenda! EU NÃO TE AMO MAIS! – os olhos dela desmentem suas palavras.

_ Não pode ser, você ainda treme quando me achego, como da primeira vez; se algo findara aqui, não fora o amor, querida! Ouça, meu coração bate descompassado, pedindo o seu.

_ O amor só existe quando dois corações batem no mesmo ritmo! E o nosso, infelizmente, não entoa mais a mesma canção. Desculpe-me, Rubens! Foi lindo enquanto durou! Mas...

_ Não pode falar isso para mim, temos uma história juntos... – pega-a pelos ombros. _Como apagá-la em um passe de mágica, Franceline? Eu não sou um lixo para ser tratado dessa forma, exijo ao menos uma explicação. O que acontece? Por que foges de mim? É dinheiro? Precisa de dinheiro? Se for, fale, dar-lhe-ei o quanto necessitar... Fale!

_ Solte-me! – pede, com os olhos anuviados. _Solte-me! Vamos abreviar o sofrimento...

_ VOCÊ AINDA ME AMA, NÃO AMA? FALE!

_Por que insistir em perguntas cujas respostas são ainda mais dolorosas? Entenda, “o amor e a razão são dois viajantes, que nunca vivem juntos na mesma hospedaria: quando um chega, parte o outro”.

_ Refugia-se nas palavras de Walter Scott16 - diz, limpando as lágrimas. _Seja você mesma, diga suas próprias poesias, recite-me toda a sua dor; só não me faça perder a esperança de que lá fora não há um lugar para nós dois. Sei que há, deixe Dilermando e venha viver comigo! Iremos para a França, para a Inglaterra, para onde quiser, só não consigo pensar em ficar sem você! Fale, tudo isso é MENTIRA, não é?

Uma lágrima desce o rosto da mulher.

_FAAAAAAAAAAAAAAALEEEEEEEEE!!!! – sacode-a, em prantos.

Ao soltar-se das mãos dele, pega a bolsa, uma Prada cinza que ornamenta o blazer branco e a calça preta, abre a porta do quarto, olha-o outra vez, abaixa a cabeça e parte, para nunca mais voltar. À distância, ouve-o gritar seu nome. Rubens está enlouquecido, a mulher que ama lhe virou as costas, como se o amor de ambos já não mais representasse a divindade. Nas escadarias, ela chora, está arrependida, mas não há o que fazer, se o caso permanecesse, uma enchente de sangue correria as ruas de Vila dos Princípios. E evitá-la era seu objetivo, ainda que lhe custasse a alegria de toda uma vida.

_ DINHEIRO! – confidencia-se, já na calçada, contendo o choro. _Se esse fosse o problema, estaria resolvido há muito; o que está em xeque agora é a vida de minha menina... Desculpe-me, Rubens, amor de minha vida! Desculpe-me, mas não nasci para ser feliz, viver nos braços de um homem de alma tão dócil como a sua; minha sina é a dor eterna! E que dor... explode o coração!

_ Como fui tolo! Então era isso?! – pergunta-se o médico, deixando de lado as memórias amargas.

No silêncio do escritório, lê a carta escrita pela mulher, não se atentando à documentação anexa.

_ Como pôde me esconder isso por tanto tempo? Como?

Enche o copo até a boca com vodka, nele mergulha duas pedras de gelo, e a bebe com gosto. Caminha até a escrivaninha, abre a gaveta e resgata a fotografia de outrora.

_ ...O que importa é que estamos juntos... E para SEMPRE!- entrega-se de novo às recordações.

_ Não existe o SEMPRE! – sentencia a dama dos Dumont. _Vivemos o presente enquanto o destino prepara o futuro.

_ Por que toda essa descrença...? – incomoda-se o médico. _Quer me deixar?

_ Não é isso, meu querido – rouba-lhe um beijo. _Estou cansada de esperar... esperar... e nada! Talvez o Céu esteja magoado comigo – sorri. _Devo não ser uma boa menina!

_ Boa menina? – diz, resgatando-se. Você nunca me amou e, se amou, foi um amor de primavera, daqueles que vêm e vão sem deixar vestígio. Egoísta! Por que guardou isso por tanto tempo? – engole outro copo de vodka. _ Seria por medo? Não acredito! Uma mulher que diz ao esposo que precisa ir ao litoral rever uma amiga à beira da morte, e se tranca no quarto de hotel com o amante, não pode se dar ao luxo de sentir MEDO. MEDROSA... Esse adjetivo lhe parece sutil demais! DEMAIS!!!! – esmurra a mesa. _DEMAIS!!!!!!!!

Toma mais um copo de vodka, dessa vez sem gelo. Vendo-a no retrato, o sorriso se alterna entre a comoção e o desatino. Como aquela mulher conseguira lhe enganar por tanto tempo, e o pior, fazendo-o feliz como ninguém mais? Ela poderia atrair desgraças, mas que o havia feito feliz por longos meses, ah, disso não duvidava. Quanta felicidade ao beijá-la por todo o corpo, sentá-la sobre suas pernas, tocá-la n’alma... Nada parecia mais aprazível do que aqueles sentimentos, todos brotados de um mesmo coração, hoje em ruínas. Perde-se em delírios... A dor é sagaz; a alegria atroz. Que disparate! De volta ao juízo, lança o copo contra a parede e destrói tudo o que há pela frente. O ódio oscula-o o âmago, despertando um ser vingativo, manipulado pela ira.

_ Doutor Rubens! Doutor Rubens... senhor! O que está havendo? – grita Maria, batendo na porta. _Doutor Rubens!

_ Vá embora... vá embora...me deixe, me deixe! – ordena, aos soluços, recolhido ao chão, com o corpo embriagado pela bebida e pela decepção; a mulher que esculpira com a avidez de seus desejos jamais existira, era produto de uma fantasia quase letal.

_ Senhor, abra a porta! Senhor... – tenta, em vão, persuadi-lo.

_ Catharine então é minha... minha...minha FILHA?! Por que não me disse antes? – quebra o retrato, pega a imagem e a observa com pesar. _Fez-me viver sozinho por quanto tempo?

_Doutor, abra a porta! – insiste a criada. _Abra!

_Fui abandonado quando mais a amava. Sabe o que é se sentir só, vazio, uma alma perdida? Pois assim me senti! Por mais que quisesse, nunca encontrei alguém que a substituísse, Franceline, porque meu amor, ao contrário do seu, não era aventureiro. Era e permanece tão puro como antes! Por mais longe que fosse, meu coração não deixava de apontar para essas terras, como se algo me atraísse. Mas o que seria? Você estava morta, por que então retornar? Eu não sabia, mas sempre acabava voltando – sorve mais da metade da garrafa. _Mas agora eu entendo...

Maria bate à porta uma última vez, depois se afasta devagar e volta para o quartinho, nos fundos da residência.

_ O que aconteceu com esse homem? Ele é tão equilibrado!

_ Cristo! Tenho uma filha! Por isso a bússola de meu coração acabava sempre me trazendo para esse lugar. Aqui estava minha FILHA, nossa FILHA, Fran...

_ Eu vou sará, doutor Rubi? – Ele é novamente surpreendido pelo passado. _Eu vô? - pergunta Alana, com os cabelos ralos e o corpo bastante fragilizado.

_ Claro, minha menina! Claro! É só pedir ao papai do céu, ele atenderá a tudo o que um anjinho como você pedir.

_ Mas eu tô fraquinha, não quero nem comê mais. Sabe o que eu queria? Era tá na escola com minhas amiguinhas... O senhor pode me levá lá? Quero vê a tia da minha escola, abraçá ela – arfa, abraçá as minhas amiguinhas. Por favô, doutor Rubi! Minha mãe disse que assim que eu melhorá, ela vai me levá lá... Acho que papai do Céu não tá me vendo.

_ Não diga isso, querida! – limpa uma lágrima que lhe cai à face._ Papai do céu só está um pouco ocupado, mas tenha certeza, ele está ouvindo tudo o que diz. Tudo mesmo! E assim que melhorar, eu mesmo a levarei à escola; em breve estará na companhia dos amiguinhos de novo.

_ O senhô vê ele? – cospe sangue. _O senhô vê ele?

_ Ele quem, Alana? – assusta-se com a perspicácia da menina.

_ Papai do Céu!

_ Papai do Céu? Ah, ninguém pode vê-lo, apenas senti-lo.

_ E como sabe que ele existe? – tosse de novo.

O médico lhe acode, limpando as vestes com desvelo. Junta suas mãos às dela com delicadeza e as leva a seu coraçãozinho.

_ Sente? Veja, o coração está batendo... Toc-Toc-Toc... Você não o vê, mas ele está aí, dentro de você, e bate feliz; com o papai do Céu é a mesma coisa, ele está aqui, nos ouve, nos toca, nos vê rir ou chorar, às vezes nos abraça, nos pega no colo, e como sabemos disso? Porque assim como o coração, não o vemos, mas o sentimos!

_ Gosto muito do senhô, doutor Rubi, podia sê meu vô, né?

As palavras da menina o enternecem. Após um pequeno sorriso, ela cerra os olhos e adormece.

_ Como ela está doutor? – indaga uma enfermeira ao vê-lo acariciando-a.

_ Pronta para partir!

_ Não há mais nada a fazer?

Ele abaixa a cabeça e o choro é sua única resposta.

_Cuidei de Alana sem saber que era minha neta – diz, libertando-se. _Ela morreu em meus braços! Minha neta! - rasga o retrato com ódio. _E como chorei a perda dela... Se eu pudesse voltar no tempo, Ó Franceline, nada seria como foi... Nada!

Uma brisa inebriante desce do céu, bate à janela e entra pelas brechas, indo ao seu encontro. Ao percebê-la, ele emudece e, como que possuído por uma força estranha, fecha os olhos e suspira, suspira, suspira tão profundamente ao ponto de perder a noção da realidade! Uma mão – esta é a sensação – o acaricia a face, enquanto os lábios sentem outra vez a essência daquela que ousara desbravar seu mundo interior.

_ FRANCELINE... É VOCÊ, MEU AMOR?! POR QUE FEZ TUDO ISSO COMIGO? QUE MAL LHE FIZ? – sussurra, em meio à crise.

A aragem cessa de repente, desesperando-o. Apoia-se à estante, quer se levantar, mas uma das pernas do móvel se rompe, jogando-o de novo ao chão.

_ Senhor Rubens, o que há?! Fale! – grita Maria, apavorada com o barulho.

_ Eu nunca usei uma arma, Catharine! – diz George, no hospital. _Nem porte eu possuo! Por que me atreveria a matar um... um MATUTO tão insignificante como aquele? Ainda se tal atitude me rendesse algo além do xilindró!

_ Então, por que Moacir inventaria uma história dessas? Ele é... é...

_ ...xucro! – completa. _Isso mesmo, é um coitado, sem eira nem beira, daqueles que se morresse agora, ninguém perceberia. Talvez esse seja o motivo para despertar histórias infundadas: defender outro de sua espécie! Ou o motoristazinho não é tão insignificante quanto ele?

_ Moacir é ingênuo demais para ter toda essa imaginação.

_ Na certa, quis inquietá-la e lucrar algum. Coisa de pobre mesmo!

_ Lucrar algum? – impressiona-se com a desfaçatez do marido. _Como assim? Quem pagaria por uma maldade dessas?

_ Talvez a oposição, que deseja a qualquer custo me derrubar, porque ela sabe, meu nome está diretamente associado à conquista do Posto de Saúde e, quando ele estiver pronto, figurarei na liderança da campanha para o cargo de prefeito de Vila dos Princípios. É questão de tempo! Então, o que lhe sobra? Instigar arruaças, despertar mentiras como a que contou, numa dessas, quem sabe não me acerta?

Catharine fixa-o repleta de dúvidas.

_ Como és Ingênua! Quem vê cara não vê coração. Moacir é franzino, tem uma família enorme, uma esposa adoentada, e que eu saiba, presa a uma cadeira de rodas... O que ele tem a perder? Nada! Já nós... Se um comentário desses cair nas mãos da mídia, será o fim de nossa família, ou se esqueceu de que estamos sob a ditadura da imprensa marrom17, aquela que primeiro bate para só depois perguntar?

George aproveita-se do silêncio da mulher para reforçar suas hipóteses.

_Catharine, atente-se ao que realmente merece nossa atenção: Joaquim é um homicida e deve pagar caro pelo que fez!

_ Convivo há meses com aquele homem e sei o quanto é puro; não me parece capaz de tal crueldade – diz, ainda não convencida.

_Você fala dele como se o conhecesse além da profissão – dispara o vereador, observando atentamente a reação dela.

_ EU? CLARO QUE NÃO! – disfarça.

_ A impressão que tenho é a de que me esconde alguma coisa, mas o que seria? Causa-me estranheza o fato de que, mesmo diante de todas as evidências, permaneça do lado daquele criado! Seja sincera, Catharine, tem algo a me dizer?

_E-e-eu? – estremece. _NÃO!

_ Talvez...vejamos... uma TRAIÇÃO?

_ NUNCA! – arrepia-se. _De onde tirou essa ideia?

_ Não sei, alguma coisa me diz que você está muito preocupada com Joaquim, aliás, mais preocupada com ele do que comigo, o seu esposo.

_ Um dia entenderá o que é o amor de verdade; quando isso ocorrer, o que lhe virá à mente, de súbito e sem qualquer receio, será esse tapa, que levarei comigo para o túmulo. Tens o meu perdão; não minha compreensão! Espero que o seu desejo nunca fuja do ninho do casamento; porque se fugir como o meu, sentirá na pele o que eu sinto e se verá no espelho como uma TRAIDORA, não como uma mulher que ousou se libertar de uma jaula para viver o mais nobre dos sentimentos... - As
palavras de Franceline lhe explodem à mente, desnorteando-a. _Eu nunca o traí, George. NUNCA!

_ Será, querida mulher, herdeira única de todo o patrimônio dos Dumont? – especula, com os olhos flamejando, ao perceber a insegurança dela. _ Sabe, a traição é genética, está no sangue e não há como não aceitá-la. Talvez eu seja a imagem atual de Dilermando, e você, o rascunho de Franceline – debocha. _ Coitado, quando ele soube dos segredos de alcova de sua mãe, não suportou a vergonha, caiu duro, levando consigo, para o túmulo, o nome do rival. Talvez o destino me reserve epílogo semelhante.

_ PARE, GEORGE, EU NUNCA FIZ NADA! NUNCA!

_ TEM CERTEZA? – insiste, com fervor. _NUNCA ME TRAIU? FALE, FILHA DE FRANCELINE, OU MELHOR, FILHA DE UMA TRAIDORA!

_PAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARE, por favor! – fecha os ouvidos, enquanto os beijos dados no criado lhe são arremessados à razão.

_ Imagine Alana, nossa filhinha, chorando lá no céu, ao saber que sua mãe se deitou com um homem que não foi seu pai... Tadinha! Faltariam anjinhos para consolá-la – desdenha com gosto.

_ Eu... – chora.

_VOCÊ ME TRAIU, NÃO É? – os berros do vereador invadem os corredores, atraindo a atenção dos outros pacientes. _E logo naquele cemitério, em frente ao túmulo de Alana. Eu sei de TUDO! O vigia de lá me contou em detalhes...

_Que vigia? – ela o interrompe, dissimulando. _Do que está falando?

_ Do vigia que trabalha no cemitério, um pobre que me deve favores, ou vocês pensavam que estavam apenas na companhia das almas penadas? Ele me ligou, detalhou fato por fato, dizendo que até parecia coisa de cinema: os pombinhos abraçados em meio à chuva, aos beijos...Que lindo! Hum! VAGABUNDA, TRAIDORA!

Abismada com a revelação, ela se retrai.

_ Está acontecendo alguma coisa, vereador? – pergunta uma enfermeira, entrando no quarto.

_ Não, minha querida, estava apenas despedindo-me de minha esposa. Agora, por gentileza, conduza-a até a saída, pois estou exausto!

Retirada do quarto, Catharine desaba em uma das poltronas do corredor.

_ INFELIZ! – ri o vereador._ Está tão perdida que chega a ser digna de dó! Mas isso logo terminará, a partida está no meio, em breve, toda a fortuna dela será minha. SOMENTE MINHA!

Cobre-se e dorme o sono dos príncipes que nunca deixaram de ser sapos.

_ Me-me-meu Deus, ele sa-sabe de tudo! Sou uma TRAIDORA! Não, isso não! Onde estará Ernestina? Preciso dela, de seus ombros...

Com o celular em mãos, liga para a mansão. Ninguém atende. Levanta-se com dificuldade e se dirige ao carro; acometida por uma vertigem, ela cai à calçada. Moacir a socorre.

_ A sinhora percisa di ajuda, dona Catharini. Vamu vortá pra dentru do hospitar.

_ Não! Não! Não, Moacir! Para o hospital não, preciso do auxílio do doutor Rubens.

O médico vê o nome de Catharine no visor do celular e não tem coragem de atendê-la.

_ Onde está? Atenda, Rubens! Atenda! Atenda, meu bom amigo!

_ Venha, vô ajudá a sinhora até u carru.

_ O que tem, dona Catharine Dumont? Está traumatizada com os últimos acontecimentos? – pergunta um dos jornalistas. _Por que o motorista atirou em seu esposo? Que mistério sustenta toda essa desgraça? Responda!

_ Sai pra lá, ocêis é tudo um bandu di urubu, quanto mais carniça, mió! Num respeita a dor dus outro! – revolta-se, ameaçando-os com os punhos cerrados.

A porta da mansão se abre. Ernestina entra. Desolada, carrega sobre os ombros todos os pecados do mundo. Os olhos da cor do sangue confirmam, ela havia chorado o caminho todo. A caixa de pandora, aberta como está, destruirá toda a família Dumont. Mas fazer o quê? Era o desejo de dona Franceline, a quem jurou fidelidade. Aliás, que mistérios ela guarda? Não sabe, mas imagina! E pela reação de Rubens ao ler as primeiras linhas da amante, coisas boas não eram mesmo!

Outro prato despenca da cristaleira, para o espanto da criada, que grita:

_ AVE! MAIS UM? SANTO DEUS, SÓ PODE SER NOTÍC...

O telefone toca antes dela concluir o pensamento.

_ Quem é? – geme de medo. _O QUE ESTÁ ME DIZENDO? QUANDO FOI ISSO? MEU DEUS, COITADO DO JOAQUIM!

_ O que aconteceu com o Joaquim? – indaga Catharine, achegando-se, ao ouvir parte da conversa.

_ UMA COISA HORRÍVEL, SENHORA... – não há forças para exprimir a dor que lhe devora a alma.

___________
16 Romancista e poeta escocês. É considerado o criador do romance histórico, cujo enredo se baseia na pesquisa e na reconstrução de dados e fatos reais do passado.

17 Imprensa marrom é a forma como podem ser chamados órgãos de imprensa considerados publicamente como sensacionalistas e que busquem alta audiência e vendagem através da divulgação exagerada de fatos e acontecimentos. É o equivalente brasileiro e português do termo yellow journalism.

XIX

O sol, um imenso disco amarelo-limão, procura espaço entre as nuvens cor-de-rosa, para beijar, com seus raios, a terra encharcada de Vila dos Princípios. O seu contraste de cores atrai a atenção dos moradores, causando emoção nos mais humildes e profunda admiração, se não inspiração, nos mais abastados. Há quem se arrisque a dizer que todo aquele colorido, mesclado e disposto em filetes no céu verde-amarelo, lembrava “O Semeador”, a tela do genial Vincent van Gogh 18 .

Pelas frestas da janela, dois idosos, ainda de pijamas, apreciam com desvelo os montes virgens e repletos do mais profundo verdor, que circundam a cidade. O dia está nascendo, traz vida aos desesperançados, amor aos desgraçados, luz aos condenados.

Da sacada da prefeitura, Adelaide assiste àquela beleza com demasiada alegria. Há quase uma semana o sol não lhes dava o ar de sua graça; nada mais justo do que recebê-lo como se recebe um ente querido.

_ O que faz em minha sala? – pergunta o prefeito, ao abrir a porta do gabinete.

_ Oh, prefeito, estava apenas admirando o dia. Viu como está lindo?

_ E desde quando a senhora é paga para “admirar o dia”? Faça-me o favor, dona Adelaide, pique a mula daqui – está de mau humor. _Espere, cadê o meu saquê? Tô com a goela seca, seca.

_ Vai beber a essa hora? – espanta-se.

_Era só o que me faltava, uma empregadazinha me controlar. Hum! Ainda mando a senhora embora, nem que seja o último ato administrativo de meu mandato!

_ Prefeito, não quis ofendê-lo! Apenas...

_ Pare de rodeios, estou com a goela seca, seca! Até parece que estou num deserto.

_ Não prefere um café, um chá, talvez um cappuccino? Preocupo-me com sua saúde, porque quem bebe aos goles como o senhor, tem grandes possibilidades de contrair uma cirrose.

_ E desde quando a senhora é formada em medicina? Vá logo fazer o que lhe mandei! Cirrose... Cirrose tem é sua mãe, sua intrometida! Dê-me logo o saquê! Vá! Isso é uma ordem – senta-se à cadeira giratória e dá três tapinhas na mesa._ Vá! Vá!

_ Senhor... - chama a assessora.

_ Trouxe meu saquê? – inquire, de costas, apreciando o movimento do comércio pela janela.

_ Está aqui! – entrega-lhe a bebida._ Mas não é sobre isso que quero lhe falar... Aquele homem está aí de novo!

_ Que homem? – vira o copo com gosto, estalando os dedos. _Arre égua, como é bom esse trem! Pois fale, que homem é esse?

_ Aquele com nome de planta.

_ Planta?! Hum! Ah, deve ser o doutor Paineiras Ken. Verdade, ele tem nome de planta! – gargalha. _Deve ter sido concebido num matagal. Há muitos por essas bandas...

_ Prefeito, que feio! – repreende-o, envergonhada.

_Feio é filho de rato que nasce pelado no meio do mato.

_Mas ele pode ouvir.

_ E daí? Que ouça! Quem manda nessa cidade sou eu, portanto, falo o quiser; aliás, aproveitando, o que a senhora fez no cabelo?

_ O senhor gostou?– anima-se. _Fiz uma escova.

_ Ficou parecendo um tamanduá de bigode! – escracha. _Não tem vergonha de sair à rua com esse topete? Se eu fosse a senhora – Deus me livre guarde, dava uma boa rastelada nessa juba. De espantalho, já basta minha sogra... Ave! A bicha é feia pra burro - gargalha._ Hum! Mas deixemos de história, peça ao doutor Planta, quer dizer, Paineiras, entrar.

Após cumprimentá-lo, Tanaka encosta a porta.

_ Deu certo o plano B? O motorista já bateu com as botas?

_ Ainda não posso lhe confirmar, mas tudo estava bem encaminhado, aliás, precisei molhar a mão do Zelão, um antigo apadrinhado meu, para que Joaquim fosse posto na pior cela da delegacia. O problema é que o delegado de lá é um desses caxias, contenta-se com o salário do Estado e pode ter quebrado nosso esquema. De qualquer forma, receberei ainda hoje uma ligação para saber como andam as coisas.

_ É bom não falhar novamente, delegado, porque minha paciência está por um fio... O senhor não está se empenhando muito como eu gostaria!

_ Faço tudo o que está ao meu alcance!

_ É POUCO! FAÇA O IMPOSSÍVEL, SE PRECISAR! – diz, com veemência.

_ Sabe, até agora eu não entendo o que se passa... Por que querem tanto a cabeça daquele coitado? Acho que deveriam se preocupar era com o doutor Rubens, ele sim é perigoso.

_ O senhor se esqueceu de quem dá as ordens aqui, doutor Plan... Paineiras? Parece o Lula, é cheio de dar palpites! E sabe onde vão parar os palpiteiros? A sete palmos abaixo da Terra.

_ O senhor está me ameaçando? – desafia.

_ Entenda como quiser! Uma coisa eu lhe digo, se não der um jeito logo naquele sujeito, a Corregedoria da Polícia receberá aquele DVD, lembra-se? Imagine o Secretário da Segurança Pública com a mulher dele no quarto assistindo a um vídeo em que um de seus delegados do interior mantém relacionamento sexual com uma garotinha de doze anos. O escândalo varrerá o Estado, cairá na boca do Jornal Nacional e o senhor acabará também no xilindró, porque, só para lembrá-lo, pedofilia é crime, e na cadeia é sentença de MORTE... Temo só em pensar no que a bandidaiada fará com o senhor! – espezinha.

_ O senhor não tem o direito de falar assim comigo, prefeito!

_ Nem o senhor de sair à caça de menininhas para saciar o desejo de homem, por sinal, irracional, DELEGADO!

_ Certo! – morde o lábio inferior com ódio. _Até o final da tarde lhe servirei a bandeja com a cabeça daquele criado.

Uma cantoria religiosa interrompe a conversa dos dois, atraindo-os à sacada.

_ O que é isso? Nunca vi tanto pobre na vida! Ave! Dá até arrepio! - diz Tanaka.

_ Prefeito, prefeito, o povo está furioso! – agita-se Adelaide, entrando no gabinete. _O senhor precisa fazer alguma coisa!

_ E por que deveria? Ave! Quero que essa pobretada se exploda, como diria o deputado Justo Veríssimo19, e bem longe de mim! Só em vê-los, me dá urticária.

_ Senhor – diz a assessora, escutei na rádio agora, a mulher de um líder comunitário da periferia, grávida de seis meses, morreu soterrada no desabamento de um dos morros da região.

_ E eu com isso? Se para cada pobre que morrer resolverem fazer uma passeata, tô lascado!

_Senhor - repreende-o com o olhar, o homem perdeu a mulher, entende?

_ Tá, tá, mande lá uns santinhos meus para confortá-lo.

O cortejo caminha para frente da prefeitura. Liderando-o, está Zé dos Cobres, que segura a primeira alça do caixão roxo, feito de papelão, amparado por milhares de cidadãos principienses, muitos deles desabrigados pela enchente do Rio Feio. Parte dos presentes canta hinos religiosos, enquanto os mais alvoroçados pedem justiça.

Os comerciantes baixam as portas com a aproximação da passeata, temem saques e agressões de toda natureza.

_ Eles estão com os ânimos exaltados – observa a assessora. _E não é para menos, muitos perderam os únicos bens que tinham, alguns, como o tal líder, a própria família. O senhor tem que ajudá-los.
_ Ajudá-los? Isso é trabalho para o delegado. Prenda todos, inclusive a defunta! Onde já se viu uma arruaça dessas e em minha cidade? NUNCA!

_Como posso detê-los? São milhares! Meus homens jamais dariam conta, aliás, esqueceu-se de que a delegacia está em reforma? Quem deve pará-los é o senhor! – revolta-se. _Para que servem os traquejos da política? Tenha certeza, são para lhe garantir a glória em momentos de turbulência como esse.

_ Mas... mas é um covarde mesmo! Hum! Tudo eu! Pois me dê a garrafa de saquê!

_ O senhor vai beber de novo? – surpreende-se a funcionária. _E numa hora dessas?

_ Como é xucra, dona Adelaide! Vou distribui-la aos pobres! Por bebida, essa gente só falta vender os filhos – diz, retornando ao gabinete. _Melhor, busque todas as garrafas que estão no estoque, enquanto dou uma retocada na maquiagem...

Abre a gaveta, retira uma cebola das grandes, corta-a com um canivete e a esfrega sobre os olhos.

_ O que está fazendo, seu Tanaka? – espanta-se o delegado.

_ Chorando... Estou abalado com toda a desgraça que se abatera sobre a bela Vila dos Princípios. Coitada da mulher do...do...como se chama o individuo?

_Zé, pelo que ouvi.

_Snif! Coitada da mulher do Mané...

_ ...Zé... Zé dos Cobres – corrige-o, Adelaide, com seis garrafas da bebida nos braços.

_Que seja – continua. _Coitadinho do Zé... Sniff! Estou tão triste pela perda de sua mulher. Sniff! Sniff!

O delegado e a assessora surpreendem-se com a improvisação do prefeito que, a julgar por suas últimas palavras e pelo tom de voz, não havia como negar, aparentava mesmo comoção com a morte da desconhecida.

Quando o cortejo para diante da sacada, Tanaka os recebe com acenos, dizendo:

_ POVO DE VILA DOS PRINCÍPIOS, SOFRO COM VOCÊS A MORTE DA ESPOSA DO SENHOR MANÉ, DIGO, ZÉ... ZÉ DAS CABRAS, COBRES – corrige-se, graças a Adelaide._ É REALMENTE UMA TRAGÉDIA PARA NOSSA CIDADE. SNIFF! MAS O QUE SE PODE FAZER? CONTRA A VONTADE DE DEUS NINGUÉM PODE!

_ Toda essa desgraça é culpa do senhor. Prometeu-nos, durante a campanha eleitoral, reforçar as encostas dos morros, mas a promessa não saiu do papel, como tantas outras. Agora estou sem casa, sem mulher, sem meu filho... Perdi tudo! – desabafa, aos berros, o pobre Zé.

_ Principiense, eu tentei, tentei de tudo para que o Governador liberasse o dinheiro para aquela obra, mas não foi possível, a crise mundial impediu qualquer investimento do Estado. Sniff! Estou tão triste quanto você! Sniff!

_ Não queremos sua pena, apenas que cumpra o que prometeu. Veja, mais da metade dessa gente está sem casa e o que fará para amenizar a dor deles? Também colocará a culpa na tal crise?

_ Que dor estou sentindo com tudo isso... – vira-se para Adelaide -... De onde surgiu esse cabra? O vocabulário dele não é de gente chula!

_ É um líder comunitário- cochicha a funcionária, dono de um ferro velho, daí o apelido de Zé dos Cobres!

_ Pois seu Zé dos Cobres – mira o popular, eu PROMETO, todos terão novas casas em breve, muito breve, nem que eu tenha de falar pessoalmente com o Presidente da República.

O povo aplaude, iludido por outra mentira.

_Se há algo de que mais amo nessa vida, são VOCÊS, caros principienses. E para provar que o meu amor é sincero, descerei para dar um abraço de solidariedade em cada um... - retira-se da sacada. _Venham, venham, tragam as garrafas... – pede ao delegado e à assessora. _Esse sujeitinho verá com quantos cobres se faz a política. Enxerido!

Desce as escadarias e ao encontrar os primeiros moradores, faz questão de abraçá-los e de lhes servir uma dose de saquê.

_ Tome uma aí, meu filho! É de graça! Vai ajudar a abrir o apetite... ops, quer dizer, suportar a DOR.

_ Olhem, o prefeito está chorando! Comoveu-se com nossa tragédia! – grita uma mulher em meio à multidão.

_ É o pai dos POBRES! – diz um ancião, comparando-o a Getúlio Vargas.

_ Principienses - sobe em um caixote improvisado, para mostrar que não sou só mais um prefeito que passou por essa cidade...

_ PARE COM ISSO! – exige Zé, transtornado com toda aquela encenação. _O SENHOR OS ESTÁ ENGANANDO COMO DAS OUTRAS VEZES. COMO PODE? ISSO CHEIRA A MAU CARATISMO! NÃO LHE DÓI A CONSCIÊNCIA?

Tanaka arregala os olhos e tenta se defender, mas o líder da plebe o interrompe com vigor.

_E AS ENCHENTES QUE TAMBÉM PROMETEU COMBATER? A MAIORIA – aponta para seus seguidores - PERDEU SUAS CASAS PORQUE O SENHOR NÃO DESASSOREOU O RIO FEIO, COMO HAVIA PROMETIDO! E AGORA, PREFEITO?

Todos se calam. O silêncio é sepulcral.

_ Encontramos o homem ideal para duelar de igual com o vereador George Dumont nas eleições desse ano! – conversam duas figuras, do outro lado da rua, à porta de um botequim. _A oposição agora terá candidato à altura!

_ O que está pensando em fazer? – pergunta Maria, vendo doutor Rubens a rigor, com as malas prontas em cima da cama.

_ Uma viagem, Maria! – diz, sob os efeitos da ressaca.

_ De repente? Mas para onde? Quantos dias passará fora?

_ Ainda não sei, o que quero mesmo é deixar essa cidade, esse país; talvez eu vá para a Europa, Ásia ou quem sabe Oceania... O que não quero é ver o sol nascer novamente aqui! – diz, tentando dar o nó na gravata.

_ E seus pacientes, como ficarão? O que lhes direi?

_ Invente uma desculpa qualquer, não tenho cabeça para pensar nisso agora-impaciente, retira a gravata.

_ Venha cá – pede a criada, deixe-me ajeitá-lo! O senhor está muito estranho, nem se parece com aquele homem feliz de antigamente.

_ Eu nunca fui FELIZ, Maria! – declara. _Apenas encenava! É diferente!

_ Pois encenava bem! Até acreditei! – confessa. _Essa sua viagem repentina nada tem a ver com a visita de Ernestina ou tem?

O homem se afasta até a janela, de onde é possível ver a prefeitura.

_ O que está havendo lá? – desconversa. _O que são aquelas pessoas? Por que estão em frente à prefeitura?

_ Bem, não sei ao certo, mas parece que estão revoltados com a morte da mulher de um líder da periferia.

_ E o que a prefeitura tem a ver com isso?

_ A mulher estava grávida e morreu soterrada durante o desabamento de um morro; algo que o prefeito prometeu alicerçar enquanto candidato.

_ É, a mentira tem voo curto! Espero que depois dessa tragédia, Tanaka respeite o povo que o elegeu.

O celular toca. Maria o pega de cima da cama, dizendo:

_ É dona Catharine Dumont! Vai atendê-la?

_ Catharine? – arrepia-se. _Não, não, deixe tocar...

_ Doutor, é dona Catharine Dumont, esposa do vereador... O senhor NUNCA lhe negou atendimento, o que há?

_CRISTO! SERÁ QUE UM HOMEM NÃO TEM O DIREITO DE TOMAR AS DECISÕES QUE MAIS O AGRADEM? – descontrola-se. _QUERO PODER ERRAR COMO TODO MUNDO, CANSEI DE SER CERTINHO! ENTENDA!

O telefone fixo toca em seguida. Maria o fita com curiosidade.

_ E agora, o que faço, senhor? Deve ser ela.

Rubens corre as mãos pelos cabelos encharcados de suor.

_ Joaquim foi esfaqueado! – diz o delegado de Vila Bonita a Ernestina.

_ Mas... mas como isso aconteceu? Por que lhe fizeram isso? Ele é um homem tão bom! – os olhos se enchem de lágrimas. _E como ele está, doutor? Morreu?

_Venha comigo, dona, vou abrir uma exceção, porque esse não é o horário de visitas... Venha! Venha!

Ela é conduzida à enfermaria, no final do corredor. Sobre uma maca está o motorista, com um corte no abdômen. Levado ao hospital, o sangramento fora contido com oito pontos, mas como não havia leitos públicos disponíveis, retornou à delegacia, onde agora respira com dificuldades, enrolado num cobertor embolorado.

_ O que a-acon-con-teceu com você, bom amigo? – aproxima-se, enternecida. Ao tocá-lo, percebe que a temperatura dele excede à normalidade. _Está com febre, doutor! – desespera-se. _Ele morrerá se não retornar com urgência ao hospital.

_ Não vá vagas para os inocentes, quanto mais para os homicidas.

_ Mas...mas ele é inocente! – enraivece a criada com o comentário preconceituoso do oficial.

_ Até que provem o contrário! – revida.

_ Ernestina? É você mesma? Não acredito! – atrai a atenção da mulher. _Veio me tirar desse lugar? Veio? – tosse. _Por que não ouvi minha mãe? Quero sair daqui e correr para o colo dela.

_ Ele está queimando em febre, o senhor tem de fazer algo, delegado?

_ Já lhe disse, dona, não há vagas nos hospitais.

_Então ele deve morrer? É o que está me dizendo? Por que é acusado de um crime, não tem direito a um tratamento digno como todos os outros? Negligência também é crime!

_ Olhe, dona, se me desacatar novamente, dar-lhe-ei voz de prisão! – ameaça.

_ A verdade dói, delegado! Dói mais do que uma facada! E assim como todos os outros que exortam o preconceito, o senhor está enganado. Esse homem tem caráter e amigos como eu, que jamais lhe faltarão! Posso lhe assegurar, ele não morrerá aqui!

Saca-se do celular e comunica à patroa os acontecimentos.

_A senhora tem de salvá-lo! Que não venha vê-lo, mas abandoná-lo seria desumano. Por favor, por mim, por nossa história, estenda-lhe as mãos, dona Catharine!

_ Ernestina, acalme-se! Estou tentando falar com o Rubens para que ele faça uma visita a Joaquim, mas não sei o que acontece, ele não atende nem o celular, nem o telefone fixo.

A criada sente o peso do remorso.

_ Está aí, Ernestina? – indaga, percebendo um silêncio repentino. _Fale!

_ Sim, estou senhora!

_ Verei o que posso fazer! Aguarde!

Desliga o telefone e senta-se numa cadeira.

_ Eu jamais a deixarei sozinha nesse velório, dona Catharine! Sei o quanto sofre com a morte de Alana, mas seja forte, nada acontece por acaso... – relembra a mulher.

_ O que será de mim, Joaquim? Estou só nesse mundo, sem amigos...

_ Sem amigos não, eu estarei sempre do seu lado.

_ E eu também! – diz, abandonando as lembranças. _Não vou lhe faltar num momento como esse, como também não me faltou quando mais precisei. Seria injusto de minha parte! Que se danem George e todos os outros... Uma vida depende de mim!

Grita por Moacir.

_ Venha comigo! Precisamos resolver um problema.

_ Dê-me aqui essa porcaria! – resmunga Rubens, bastante impaciente, vendo o celular tocar novamente.

_ Não irá mesmo atender a ligação? – insiste Maria.

Contrariado, responde à empregada:

_ Já disse que não! Agora me ajude com as malas, o avião para São Paulo partirá dentro de alguns minutos.

_ O senhor está sendo negligente! Como pode deixar à deriva uma de suas mais antigas pacientes? Decepciona-me tanto!

Os dois discutem.

_ Se não quer me ajudar com a bagagem, tudo bem, mas quando eu voltar, teremos uma boa conversa – diz ele.

Abre a porta e quase grita de espanto. À sua frente está Catharine.

___________
18 Um dos maiores mestres da história da arte de todos os tempos, o holandês Vincent Willem van Gogh estabeleceu as bases da pintura do século XX. Mais ousado do que os impressionistas, chegou a expressar seus sentimentos por meio de uma representação totalmente subjetiva da realidade. De difícil classificação, cronologicamente sua obra pode ser considerada pós-impressionista.

XX
Maria acompanha com atenção todos os gestos do patrão.

_ Posso entrar, Rubens? Precisamos conversar! – pede Catharine.

_ A-agora? Mas... mas estou...quer dizer, bem, tenho de viajar, ministrarei uma palestra aos residentes do Hospital das Clínicas de São Paulo. Infelizmente, nossa conversa ficará para outro momento. Desculpe!

_ O senhor não irá para o exterior? – interfere a empregada, para o desespero do homem, que a fuzila com os olhos.

_ Como pode viajar, se é a única testemunha do suposto crime? Comunicou as autoridades?

_ Isso não vem ao caso, até porque, como você mesma disse, sou a testemunha, não o acusado. E que eu saiba – seu tom de voz é agressivo, apenas quem está sob a custódia da Justiça tem a liberdade cerceada, o que não é meu caso.

_ Rubens, o que há? Apenas fiz uma pergunta, não uma acusação! Por que age com tanta violência? Você nunca foi assim.

_ Sempre há uma primeira vez! – completa o médico, fugindo dos olhos dela.

_ Preciso de você, não me falte nesse momento, por favor!

_ Já disse, terei de viajar, aliás, não posso viver em função de sua família... Basta uma dor de cabeça para me tirarem da cama ou mesmo mudarem meus planos. Se precisa de ajuda, aqui está o cartão – retira do bolso- de outro renomado clínico geral da cidade.

_ Não compreendo, você é o médico de minha família há décadas, viu-me nascer, crescer, casar, e, em momento algum, negou-me seus préstimos; de repente, sabe-se lá o porquê, deixa de atender minhas ligações, meus pedidos de socorro... O que lhe fiz, homem, para me tratar assim? O que recebe não é o suficiente? Então faça o seu preço que eu o cobrirei.

_ Não insista, já disse, tenho de viajar... Se me der licença, tenho de carregar as malas até o carro.

_ Rubens?! – espanta-se com a frieza dele._ Deixe-me ao menos entrar, contar-lhe o que está acontecendo.

_ É melhor não, meu voo partirá daqui a alguns minutos.

_ Entre, dona Catharine! – interfere Maria, importunada com o descaso do patrão. _Ele é de lua, um dia está sorrindo, noutro dando patadas, não é mesmo doutor Rubens Arraia? – pronuncia o nome dele com indignação.

O médico dá um passo para trás, permitindo que a mulher adentre a residência. Antes de fechar a porta, inspira com vontade; o embate com a única filha é inevitável.

_ Seja breve, o que a traz aqui? – sua aspereza a inquieta.

_ Joaquim! Ele foi esfaqueado e está entre a vida e a morte! Não há quem possa lhe prestar socorro, os hospitais estão sem vagas.

_ Esse é o problema de todo pobre nesse país: quando adoece ou sofre alguma agressão inesperada do destino, vai para o C.T. I ou para o cemitério. Hum! Tome o telefone do prefeito daquela comarca e solicite sua intervenção. Use meu nome - se for o caso, ele me deve muitos favores – diz, simulando desinteresse pelo caso.

_ Vá atendê-lo, doutor! O que lhe custa? – Maria reforça o pedido.

_ Cale a boca! – a ressaca lhe devora os sentidos. _Cale a boca! Já disse que não posso...

_ Como me decepciona, Rubens! Pensei que fosse humano, de um coração belo, de uma alma pura. Estava errada! É como todos os outros, incapaz de estender a mão a um semelhante! – confessa a herdeira dos Dumont, com os olhos tomados por lágrimas. _Joaquim morrerá e por negligência sua.

_ Minha?!! Não! Em nenhum de meus afazeres consta que devo atender a um reles motoristazinho – a vontade é a de lhe revelar todos os segredos daquela carta; entretanto, contém-se, para o bem dela. E, ao invés de acariciá-la, chamá-la de filha, opta por maltratá-la.

_E ajudar o próximo não faz parte de seus afazeres, aliás, de seu juramento médico?- pergunta Maria, entrando na conversa, para o profundo descontentamento do homem, que pede, uma vez mais, que ela se cale.

_ Ele está falando como George! – constata Catharine.

_ Tens a audácia de me comparar àquele homem vil? Coitada! Não consegue discernir o belo do rústico, o joio do trigo.

_ Por que me ofende? – magoa-se. _ Pensei que fosse meu amigo, meu melhor amigo; mas o que está a minha frente é apenas a imagem desmistificada de uma fantasia, que de tão cultuada, às vezes parecia real. Talvez George esteja mesmo certo, você jamais gostou de mim, obteve apenas prestígio com seus préstimos a minha família. Quem não desejaria o status de “médico dos Dumont”?

Um resquício de pena recai sobre os ombros do homem, que ainda assim se mantém firme, porque se esmorecesse, os podres de um passado poderiam condená-la à dor eterna.

_ Como é tola, menina! Acha mesmo que a ladeei todo esse tempo para usufruir de seu sobrenome? Não me vendo por tão pouco! Hum! Você não me conhece!

_ Não mesmo! - rebate a filha de Franceline, para o espanto dele.

_Você não cresceu, é uma garota mimada, basta estalar os dedos para que tudo lhe caia às mãos como num passe de mágica. Não lhe cansa ser assim tão frágil, tão pedante? – aproxima-se de uma adega - Você sofre de egocentrismo; é como se tudo girasse ao seu redor e as pessoas só existissem para servi-la. Olhe, vá embora, antes que eu acabe falando mais bobagens! Ah, me esqueça! Destituo-me do cargo de médico de sua família... – pega a garrafa de vinho do Porto, enche o copo até a boca e o entorna de uma vez.

_ Doutor, o que faz? – intervém a criada._ O senhor está sendo grosseiro!

_Cale a boca, serviçal, se não a demitirei!

_ Pois faça; quero ver! O senhor não merece o nosso apreço.

_ Você não é o Rubens que conheço, é outra pessoa, como se quisesse me ver mal, destruída. Cadê todo aquele carinho, aquele afago? – desola-se a esposa de George._ O que o fez mudar tanto?

_ Quer mesmo saber? – Maria entra na conversa de novo. _Ele ficou assim depois da visita de Ernestina.

_ ERNESTINA? – espanta-se. _Como assim? Ela esteve aqui? O que queria?

Rubens engasga com o segundo copo ao ouvir o nome da criada.

_ Maria, já disse, vá para a cozinha... Ela não sabe o que diz, Catharine! É a velhice chegando.

_ Sei sim! Ernestina esteve aqui ontem à noite, depois disso, ele virou o capeta, dona Catharine. Acho que vou chamar o padre para exorcizá-lo!

_ Está demitida! - sentencia o patrão. _ Pegue suas coisas e dê o fora de minha casa. Fora!

_ Não faça isso com ela, por favor! A culpa é minha, portanto, desconte em mim o seu nervoso! – pede a herdeira dos Dumont.

Maria sobe a escadaria contrariada. Aquele homem, outrora amável, agora nega socorro aos que mais o prezam, e ainda tem a coragem de mentir para justificar sua atitude.

_ O que Ernestina veio fazer aqui?

_ Então me fale a verdade, Catharine!– desconversa, aproximando-se, com o olhar dominado pela curiosidade. _O que você tem com Joaquim? Ele é apenas um criado seu ou algo a mais? Seu marido sabe que está aqui, pedindo para que eu salve a vida dele? Sabe?

Ela não responde.

_ Ah, faça-me o favor, mulher – diz, pegando-a pelos ombros - quantas humilhações ainda terá de sofrer para perceber que me cansei de você?

_ Rubens?!! - lágrimas descem-lhe o rosto, desordenadamente. _O que está fazendo? Solte-me, está me machucando.

_ “Se um dia tivermos um filho, dar-lhe-ei tanto amor, Franceline, que nunca sentirá o vazio que ora mora dentro de mim. Farei de tudo para que seja o mais feliz possível! E se tivermos uma menina, então? Acho que deixarei até o emprego para paparicá-la. Sou muito apegado às crianças, quando as vejo, tenho vontade de brincar... É verdade! É como se eu me sentisse VIVO, entende? – sua singeleza é embriagante. _Jamais deixaria um filho meu sofrer, seria o pai mais perfeito...” – alça do baú do tempo um dos momentos mais íntimos com Franceline. _CRISTO! O que estou fazendo? – cai em si.

_ Não tenho nada com Joaquim, se é isso que quer saber – diz, libertando-se.

_ Eu o flagrei a beijando no quartinho de Ernestina! Não minta para mim, sei de tudo.

_ Tudo o quê? Sou uma mulher casada, respeito meu marido, o brasão de minha família.

_ Então o que faz é por pura caridade? Palmas para você, acaba de ganhar o troféu Madre Teresa de Calcutá19. Poupe-me de seu cinismo, por favor, porque diante de ti está um homem vivido, que aprendeu com a vida todas as traquinagens dos amantes.

_ Eu não tenho nada com ele! Apenas não posso deixá-lo entregue à própria sorte. Se não ajudá-lo, quem mais ajudará?

_ Ó, Catharine, não minta para mim nem para ti, pois o ama, não é isso? Trai seu marido com aquele coitado, não é? Fale! Por isso todo esse interesse em salvá-lo!

_ Não!!! – descontrola-se. _ Não!!! Nunca traí meu esposo!

_ É como sua mãe... Tens um amante!

_ Como pode dizer tal coisa? Por acaso era confidente daquela “mulher de rua”? – estranha.

_ E quem em Vila dos Princípios não sabe que seu pai tornou-se desgostoso após descobrir a traição de dona Franceline? – encena um deboche típico dos urubus de plantão. _ Na época, a cidade pegou fogo!

Catharine abaixa a cabeça, surpresa com a revelação do homem.

_ É como ela, Catharine? Traiu George com Joaquim, não foi?

_ Como pode fazer tal comparação? Aquela peste desgraçou nossas vidas; meu pai estaria vivo, se ela tivesse contido o cio que lhe corria às veias – há muito rancor em suas palavras.

_ Você está se referindo a sua mãe? E com essas palavras? Como pode? Ela a amava mais do que tudo nessa vida, sou testemunha disso. Quantas vezes a socorri depois de ser espancada por Dilermando... E sabe por quê? Ele dizia que você, menina, havia trazido dor àquela casa! E ela nunca aceitou isso!

_ Mentiroso!!! – afirma, enraivecida. _ Meu pai me amava; já ela, só pensava em se deitar com outros homens, ou Vila dos Princípios Também não sabe disso? – desafia. _ Ele era e permanece sendo tudo para mim! Aliás, depois de Alana, ele foi a pessoa que mais amei nessa vida.

_Vejo que conhece pouco seu pai! – lamenta-se o doutor.

_ Você quer me confundir, deve ser isso!

_Longe de mim!

_Então, por que defende aquela criatura?

Rubens não se contém e faz outra comparação:

_ Tens os olhos, os lábios e o modo de ser iguais aos dela; falta-lhe a força arrebatadora que a levou para os braços do homem que tanto a amou nessa vida.

_Do modo como fala, até parece que conheceu esse homem... – insinua, com os olhos reluzentes de curiosidade.

_ Está enganada! O nome do infeliz foi para o túmulo com sua mãe, ou se esqueceu? – segura-se outra vez, para não se revelar.

_ Quem pensa que é para falar assim comigo?

_ O seu melhor amigo ou não foi assim que me intitulara?! Não seria melhor confessar ao mundo que ama um chofer a sofrer nas mãos daquele marido psicopata? Pobreza não é doença, querida! Pelo contrário, são os pobres que vivem o verdadeiro amor, porque entre eles não figuram seres ardilosos como a ganância e o poder; apenas a vontade de ser FELIZ!

_ Vou-me embora, chega de tanta humilhação.

_ Não! – segura-a pelo braço. _ Agora você me ouvirá!

_ Largue-me, já! Sou uma DUMONT e exijo respeito!

O celular dela toca.

_ Dona Catharine, pelo amor de Deus, corra, Joaquim está convulsionando.

Ela desliga o telefone e cai ao sofá, gélida como os mortos. Rubens quer tocá-la, senti-la sua, revelar o seu segredo, mas o receio – ah, o receio, aquele verme que mora na cabeça dos fracos - o impede, até porque, ela já não é mais sua filha... É uma legítima Dumont, com a graça de Franceline e a arrogância de Dilermando. Se lhe dissesse tudo, um terremoto varreria Vila dos Princípios e o escândalo não teria fim. De um sobrenome de que tanto se gaba a uma simples Arraia... Que sina a sua!

_ Eu confesso... – diz, cabisbaixa.

_ Confessa o quê? – é apanhado de improviso. _O que está me dizendo?

_ Eu amo Joaquim! Era isso que queria ouvir, não era? – indaga, com os olhos mergulhados na dor._ Eu o amo! Por favor, agora o salve! Ele está muito mal! Precisa de sua ajuda. Por favor! – suplica. _Por favor!

Ele corre as mãos pelo cabelo encharcado, dá um passo para trás, olha-a com o amor de um pai... Que felicidade ouvir aquilo! Estava enganado, ela não era apenas uma Dumont; sua essência também corria dentro dela! Era visível por meio daquele medo em cujas raízes não havia o horror, mas a eterna vontade de amar e de ser feliz dos Arraia. E isso o esperançava! Quem sabe um dia não poderá chamá-la de filha e ter o prazer de ser chamado de pai.

_ O que está me dizendo, Catharine?

_ Que amo Joaquim e ele está morrendo... - levanta-se, para cair em seguida, abatida por uma vertigem.

_ Querida, acalme-se! Venha cá!

Ao socorrê-la, percebe outra mancha roxa em seu colo.

_ O que é isso?

_ Não sei, estão aparecendo em todo o corpo – responde a mulher.

Pensamentos ruins enchem-no de preocupação.

_ Ajude-o, por favor! – suplica mais uma vez.

Ele se refugia dentro de si por alguns segundos, depois sobe as escadarias, onde encontra Maria.

_ Isso é do senhor? – diz a mulher, com a carta em mãos.

_ Por favor, dê-me isso! – pede, sem responder à pergunta.

_ Cuidarei dela, enquanto o senhor socorre o tal criado – os olhos da mulher parecem águias atrás de presas, para o pavor do homem, que teme a revelação de seu segredo.

Estacado ao corredor e de costas para a empregada, ele não diz qualquer palavra.

_ Não se preocupe, doutor, não direi uma só palavra; sei o que está sentindo e peço desculpas pelo meu julgamento precipitado! O senhor é um homem de bem, Deus sabe disso, como também sabe que o senhor não poderia ter ficado com dona Franceline. Muito sangue teria sido derramado! Muito mesmo! E ela também sabia disso!

_ Se há algo de que me orgulho nessa vida é o de tê-la em meus braços!- recorda o homem, dominado pela emoção.

_ Como está romântico, querido! Queria que esse momento não findasse nunca! Como é bom estar com quem amamos, não é?

_ Mas esse momento pode ser eterno, deixe Dilermando e venha viver comigo!

_ Não posso, Catharine ainda está novinha, como deixá-la distante do pai? Seria crueldade de minha parte.

_ E como pode viver com um homem que não ama? Como pode beijá-lo sem sentir náusea? Como pode tocá-lo sem sentir asco?

_ Por uma filha, uma mãe é capaz de qualquer coisa, até mesmo de encenar o amor...

_ Você me assusta, sabia?

_ Por ser tão sincera? É o meu grande defeito!

_ E é o que me amedronta!

_ Você é uma dádiva celestial – revela a mulher, olhando-o fixo. _Queria ter a coragem de dizer ao mundo que tu és o meu grande e único amor – sorri, abraçando-o.

_ Doutor – chama novamente a empregada, percebendo-o letárgico, tudo bem? Parece tão distante.

_Estou bem, fale!

_ Assim que o senhor voltar, eu arrumarei minhas coisas.

_ Esqueça tudo o que lhe disse, você não é minha empregada; é minha amiga. Aqui não é o seu local de trabalho; é a sua casa.

_ Como é? Catharine está providenciando auxílio médico ao motorista? – berra o vereador, ainda no hospital, ao prefeito, que acabara de chegar.

_ É o que o doutor Paineiras me disse! Ele acabou de chegar à delegacia de Vila Bonita e soube dos fatos pelo delegado de lá. Coisa de louco essa sua mulher, né, George? Eu lhe disse, aplique-lhe um bom corretivo, aquilo lá tem sangue ruim... – esbraveja o prefeito. _Mas não, só sabe dar aquelas surrinhas que nem marcas deixam!

_ Isso atrapalhará novamente os nossos planos. Droga!

_ E tudo por causa daquela empregadazinha dos infernos, a tal da Ernestina! Essa é outra que temos de apagar logo, parece um cão de guarda! Ave! – retira uma pequena garrafa do bolso e a vira na boca. _Esse saquê está divino! Quer um pouco?

_ Como pode pensar em bebida numa hora dessas, Tanaka?

_ Meu filho, cada um se apega ao que tem... Uns se apegam a Deus, outros aos santos e eu ao saquê! Quer algo mais relaxante? É graças a ele que estou aqui agora...

_ Como assim? Do que você está falando? – estranha o vereador.

_ Passei por uma agora há pouco, mas dei a volta por cima. Sabia que aquela gentalha não se recusaria a provar do meu saquê – ri. É, não foi fácil, mas dobrei a todos com mais promessas. Também, bêbados daquele jeito, tudo o que eu dissesse viraria gol do Corinthians. Pobre é tão previsível!

_ Está louco, homem? Não estou entendendo nada do que está dizendo!

_O que seria do político se ele não tivesse o dom da mentira, George? Estaria arruinado! Mas algo me intriga, aquele Zé dos Cobres é um bicho rasteiro. Hum! E bicho rasteiro se mata a porretada.

_Zé dos Cobres? Quem é esse? Ah, Tanaka, poupe-me dessas histórias provincianas! O que quero é ir a Vila Bonita, flagrar Catharine prestando socorro ao motorista.

_ E para quê? Aí sim dirão que é um corno! – percebe ter falado demais.

_ Corno, EU? – o sentimento mescla fúria e admiração.

_ Até agora a mídia não entendeu o que se passou naquele quartinho! Supõe uma traição, daí a afirmá-la é outra coisa! Temos que ter cuidado, George, pois a campanha à prefeitura se iniciará dentro de algumas semanas, e não quero vê-lo desenhado com chifres por aí.

_ E o que sugere? Que eu fique quieto enquanto ela me humilha? Porque isso é uma humilhação! Como pode estender as mãos ao homem que pretendia me matar?

_ Estamos num fogo cruzado! – dá outro gole na garrafa. _Mas, pelo o que o doutor Paineiras falou, ela ainda não chegou à delegacia; então, que tal simularmos uma crise, dessas de apavorar até centro de macumba?

_ Como assim? – pergunta o curioso vereador._ Não entendi!

_ Mas logo vai entender – diz, sorvendo outra dose da bebida._ Espere e verá! – gargalha.

_ Se percisá de arguma coisa, é só pidí, Zé! Nóis é probi, mais tem bão coração! Ondi comi deiz, comi onzi – o alcoolizado ancião presta solidariedade ao ferreiro Zé dos Cobres, durante o enterro da esposa dele.

_ Obrigado, seu Juca! Deus lhe pague por tanta bondade!

Abraçado a mais dois amigos, Zé acompanha o caixão ser engolido pela terra. O silêncio do lugar é de arrepiar... A alguns metros, os dois homens de outrora o acompanham com discrição.

_ Será que dará certo? Acho-o pacato demais!

_ Pacato? Ele é um pedacinho de carvão a ser lapidado... – responde Alberto, o líder da oposição, ainda encantado com a postura insurreta do ferreiro.

_ Não sei! Apesar dele falar bem, parece muito honesto para entrar para a política – responde Ricardo, seu assessor.

_ Ele me lembra alguém, mas quem? Já sei - estala os dedos, Paul Potts!

_ O vendedor de celulares, de olhar melancólico, com defeito nos dentes, que emocionou o mundo ao cantar ópera naquele programa inglês?

_ Exatamente! Assim como Potts, alguém daria alguma coisa por esse coitado? No entanto, ao peitar o prefeito parecia um leão, fazendo das palavras o seu urro. E
que urro! Tanaka quase caiu do caixote. Não havia quem não se impressionasse com sua braveza, palmas foram ouvidas... Zé dos Cobres é o nosso Paul Potts, homem ideal para derrotar nas urnas o petulante vereador George Dumont e seu fiel escudeiro, o prefeito.

_ Mas... mas...não sei, esse coitado? – hesita.

_ Cuidado com o preconceito, Ricardo! Não são as roupas nem as contas bancárias que fazem um Homem, mas o seu caráter. E isso ele tem de sobra! – coça o cavanhaque, imaginando o futuro político do rapaz. _“Para enxergar claro, bastar mudar a direção do olhar”, como diria Exupéry20.

O coveiro joga duas ou três pás no buraco, quando se ouve um estouro; a tampa do caixão, de papelão, rompe com o peso, deixando à mostra os enfeites mortuários, para o desespero do marido, que se ampara nos ombros amigos.

_ Ajudarei Joaquim! – diz Rubens, retornando à sala de estar. _Pensei bem, devo-lhe isso!

Catharine alumia a face entristecida com um enorme sorriso.

_ Eu sabia, você jamais deixaria de atender a um pedido meu! Obrigado, meu amigo!

_ Antes de qualquer coisa, precisamos de um bom advogado, alguém com experiência suficiente para burlar todos os entraves burocráticos e conseguir um habeas corpus em curto espaço de tempo. Temos de retirar Joaquim daquela cadeia, caso contrário...

_ Falarei com o doutor Jaime, o advogado de minha família, ele saberá como proceder.

_ Tomara! Estou indo para Vila Bonita.

_ Vou com você!

O celular dela os interrompe.

_ O que aconteceu com George? Meu Deus! Ele foi levado para o C.T. I? Como foi isso? De repente? Tanaka, me explique direito, não estou entendendo nada! Fale devagar!

_ O que aconteceu? – indaga o médico, num misto de estranhamento e desconfiança.

_ George teve um infarto! Como pode uma coisa dessa, Rubens? Estava tão bem ontem à noite... – abraça-o, para o espanto dele, que se limita a alisar os cabelos dela. Como é difícil estar diante da própria filha e não poder se assumir como pai. A dor é fina, mas perfura o coração com a força de uma estaca.

Ernestina mede novamente a febre do rapaz, que bate os quarenta e um graus.

_ Como ele está? Já bateu as bot... melhorou? – pergunta Paineiras ao delegado daquela comarca.

_ Está mais pra lá do que pra cá! Não tenho coragem de expulsar essa dona daqui – aponta para a empregada, ela tem grande apreço pelo meliante, veja, está a lhe molhar a face com uma paciência de mãe...

_ ...ou de amante! – zomba Paineiras. _Mas precisa retirá-la daqui, sabe como é, se alguém resolver denunciá-lo à Ouvidoria, poderá ser punido. Hum! O secretário não lhe poupará o fígado, ainda mais que se encontra em estágio probatório21. Deixe o infeliz trilhar o seu caminho; que se há de fazer se não há vagas nos hospitais da região?

_ Tem razão! Obrigado por me abrir os olhos, como é bom contar com amigos nessas horas.

A empregada resiste às investidas do delegado, quer permanecer ao lado do motorista, mas ele está irredutível, teme infringir as orientações da Secretaria e ser alvo de uma sindicância, como alertara Paineiras. Então era melhor não arriscar, por mais pena que isso lhe causasse.

_ Como lhe prometi, prefeito, de hoje esse infeliz não passa! – delicia-se Paineiras ao celular, enquanto a mulher é arrancada à força da enfermaria.

Assim que ela sai, Zelão entra e fecha a porta. Com o pedaço de uma camiseta, ele tapa a boca de Joaquim, que se debate, enquanto a face é tomada pelo sangue.

_ Chegou seu fim! Vai estar com os vermes daqui a pouco – afirma, vendo-o revirar os olhos.

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19 Missionária católica albanesa, nascida na República da Macedônia e naturalizada indiana, beatificada pela Igreja Católica em 2002. Considerada, por alguns, a missionária do século XX, fundou a congregação "Missionárias da Caridade", tornando-se conhecida ainda em vida pelo cognome de "Santa das sarjetas".

20 Antoine de Saint Exupéry (1900-1944) foi um escritor, ilustrador e piloto francês, é o autor de um clássico da literatura “O Pequeno Príncipe”, escrito em 1943. ... Era o terceiro filho do conde Saint-Exupéry e da condessa Marie Fascolombe, família aristocrática empobrecida.

21 Período em que o servidor público terá seu desempenho avaliado, onde será verificado se ele possui aptidão e capacidade para o desempenho do cargo de provimento efetivo no qual ingressou por força de concurso público.


**Continue lendo - capítulos 21 e 22
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Carlos Mota
Enviado por Carlos Mota em 19/03/2020
Alterado em 31/05/2020
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