OBRAS DO PROFESSOR CARLOS MOTA
Cuidado com as aparências...
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Textos
I

O quarto permanece escuro... Chove muito! Por todos os cantos só se ouvem gritos, gemidos e preces de mulheres desoladas, que sentadas a um banco de madeira, cobrem-se com um fino manto de lã, na esperança de suportarem o frio do corredor.

A melancolia, como aura, varre a alma e a mente daquelas pessoas, fazendo-as clamarem por paz. Bem lá no fundo, encostado a uma das paredes, uma figura alta, de cabelos grisalhos, com um cigarro entre os dedos da mão direita, ansioso por fumar, acompanha a tudo com certo incômodo. Parece mais preocupado com a hora que passa, com o vício que o consome, do que com os fatos que ali transcorrem.
 
A porta do quarto se abre, entram algumas pessoas e novamente se fecha. Minutos depois é escancarada para que a maca possa invadir o corredor e levar o doente, um jovem de 23 anos, que arqueja, antevendo o próprio fim.

Uma das mulheres se levanta - possivelmente a mãe, toca-lhe à face, tenta dizer-lhe algo; dominada pelo momento, cai em um choro profundo, sendo contida pelo médico, outro jovem, da mesma idade de seu filho.

A maca prossegue o trajeto, todos se erguem para ver o pobre garoto passar. Abrem-se as portas do CTI, os equipamentos o aguardam. Entubado, o rapaz tenta, mais uma vez, resistir à morte, este mal que o envolve, com sagaz voracidade e sem qualquer ressentimento.

Olhando-o pelo vidro, a mãe reza à espera de um milagre; oferece sua vida em troca da dele. Mas o céu está reticente. O menino deve mesmo partir!

Tocado pela dor daquela gente, o tempo corre sem paradeiro, como se estivesse numa corrida de biga1, em épocas de uma Roma antiga, na disputa com o destino pelo futuro do garoto que, ao que parece, já não tem mais chances de permanecer neste mundo onde os homens carecem daquilo que se acostumaram a chamar de fé.

Cada vez mais pessoas chegam, todas se aglomeram, esperando o pior. E o que seria o pior? A própria MORTE!

Com os cabelos ralos, a pele embriagada por um suor sufocante, o rapaz luta para continuar entre nós. Uma luta inglória! Com os olhos túmidos, fixos a um ponto do quarto, parece despir-se de razão... Aos poucos o aroma de rosas selvagens o atrai a um enorme jardim, que abre em meio às paredes, de onde é possível se avistar pássaros, muitos pássaros, milhares deles, cruzando um céu que mais parecia saltado da tela de O espelho falso, de René Magritte2. Tudo lhe traz a sensação de liberdade... Uma liberdade que a sociedade não consegue recriar com todo o dinheiro que lhe corre nas veias.
 
O equipamento que monitora seus batimentos cardíacos apita, a correria aumenta, todos tentam evitar o inevitável: sua partida! O que era temor, torna-se realidade em poucos minutos.

A mãe do garoto surta; termina contida pelos braços fortes daquela figura alta, de cabelos grisalhos, seu ex-marido, a quem não via há mais de 20 anos e que, por obrigação, encontrava-se ao seu lado, sem que qualquer lágrima caísse ao  envelhecido rosto. O filho havia partido, mas para ele que nunca o conheceu de verdade, pouco importava. O que mais queria mesmo era sair dali e retornar à vidinha em que aquelas figuras não passassem de meras lembranças de um passado já enterrado nas searas do tempo.

Cabisbaixo, o médico responsável pelo plantão recolhe-se ao consultório após assinar o motivo do falecimento.
Voam as horas, assim como o velório, o sepultamento e os dias seguintes.

Ao entrar pela primeira vez no quarto do filho desde que ele partira, a mãe treme de dor - uma parte sua havia dissipado no espaço, deixado um enorme buraco em seu coração. E aguentar aquela dor não seria fácil. Perder um filho é como perder o próprio reflexo: cruel e sem volta. Cabisbaixa, deita na cama do garoto que ainda estava do mesmo jeito que ele a deixou, cheira o travesseiro, abraça os cobertores, até encosta-se a algo que lhe atrai a atenção. Remexe com cuidado, quando se vê diante de um pequeno caderno. O rapaz o havia deixado antes de voltar ao hospital pela última vez.

Sentada, passa a manuseá-lo na esperança de trazer o filho de volta, pelo menos nas lembranças. Na primeira página, o susto. Nela estava grafada, em letras mal escritas, o que seria o "Diário de um Aidético". 
__________                                                                              1. Uma biga é um  carroça de duas  rodas, movido por dois cavalos, semelhante a uma quadriga (movida por quatro cavalos). Foi usada na Antiguidade como carro de combate, mais especificamente durante as idades do Bronze e do Ferro. Na Roma Antiga, as corridas de biga foram um dos mais populares esportes do período. As corridas eram perigosas para os pilotos e  cavalos, já que muitas vezes sofriam ferimentos graves e até a morte, mas esses apuros aumentavam a excitação e o interesse dos espectadores.
                                         
 2. Foi um pintor belga, um dos principais representantes do Surrealismo, ao lado de Salvador Dali e Max Ernst.
 
II
 
Desnorteada, ela deixa o diário sobre a cama, afasta-se até a janela, visualiza os longos terrenos circundantes, como se estivesse à procura do filho, que agora fenece como as flores no inverno.

Tudo parece comover-se diante de seu desespero... O sol, em luto, esconde-se atrás de grandes nuvens. Os pássaros não voam; acomodados nos galhos das árvores, esperam o momento certo para partirem.

Por um instante, toda aquela apatia cai por terra ante a chegada de um pequeno menino, de uns oito anos, que corta os terrenos com sua bola de futebol.

Acompanhado pelos olhos semicerrados daquela triste mãe, o menino senta-se ao chão, olha para todos os cantos, como se também estivesse à procura de alguém. Passam-se os minutos... Para disfarçar a impaciência, ele pega a bola e faz algumas embaixadas e, numa delas, olha para a janela do quarto onde estava a mulher.

Seus olhos se cruzam. A mulher não entende o garoto, que lhe acena com um largo sorriso. Mesmo assim,
movida por um oceano intrínseco de ansiedade, ela corre até a porta, almeja falar com aquele menino, dizer-lhe algo, talvez abraçá-lo, e sabe lá mais o quê. Quando chega ao terreno e o vê diante de si, fecha os olhos, pensa estar enlouquecendo... Recobra os sentidos após ouvir a criança perguntar: _Mãe, já fez o bolo de que lhe pedi?


Ao abrir os olhos, não havia mais ninguém. O menino havia partido com o vento, rompido a lei da racionalidade e bagunçado sua mórbida e frágil linha psíquica.

Caída ao chão, verte-se em lágrimas. 
         
III
 
A casa está tão triste quanto antes. A pobre senhora fecha-se para o mundo, esquece-se de si, de sua família e entrega-se, aos poucos, a uma depressão tão ferina e letal quanto ao veneno de uma cobra. Dificilmente conseguirá sair deste estágio - é o que pensam seus outros filhos, uma vez que o finado garoto era o descendente que ela mais amava, despertava interesse. Não que não apreciasse os demais; tinha estima por todos! Acontece que o que havia partido era o caçula, aquele que mais mimou e amou como os deuses aos homens. Sua falta era tamanha que a desafiava a viver! Sentia-se um vaso sem flores, vazia na forma e na cor. Que sina!

 Tinha vontade de voltar ao quarto dele, fechado desde aquele dia. Desejava ver o restante do diário, saber o que ele tanto escondia nas páginas daquele livro - seu fiel e mudo confidente!

_Mãe, o que está acontecendo? Faz mais de dez dias que a senhora não vê o sol. O que espera de tudo isso? Quer morrer? Meu irmão se foi, mas estamos aqui e, como ele, precisamos muito de seu amor, de seu afeto, de seu abraço. Por favor, enxergue-nos!- suplica Laura, a filha mais velha, tocando-a no ombro direito, enquanto ela lavava a louça do café. _ Mãe...- insiste a moça._ Mããããe!!! Estou aqui!!!

Mas, infelizmente, ela não estava. Sua mente a transportara para uma outra dimensão, longe da dor e do sofrimento – os personagens atrozes desse folhetim.

Gabriel, o filho do meio, se aproxima, beija-lhe a face e tenta lhe dizer algumas palavras, as mais sinceras de um coração ferido...Em vão!

A mulher termina de lavar a louça, desliga a torneira, joga o guardanapo sobre a mesa e dirige-se ao quarto do garoto. Não aguenta tanta pressão e entrega-se à curiosidade. Ao abrir a porta, sente o aroma da morte oscular sua  alma. Todos  seus gestos são acompanhados pelos filhos, há pouco ignorados.

Ao sentar-se na cama, ela retira o diário debaixo dos cobertores, abraça-o com força, como se fosse o filho que Deus lhe retirou, desfazendo-se em lamentações. Vendo o caderno, o filho mais velho indaga, abismado:

_Um diário? De quem é? De meu irmão?

A mulher apenas soluça.

_Deixe-me vê-lo, mãe, por favor!- pede a filha.

A mulher entrega-lhe o livro. Ao abri-lo nas primeiras páginas, Laura surpreende-se com os seguintes dizeres:

"Dedico este livro ao meu filho, que nascerá em três meses...”

IV
 
A notícia cai como bomba. A pobre senhora levanta-se de ímpeto, e diz, por repetidas vezes, como se estivesse possuída por um gênio ruim: "Um neto! Um neto?!! Eu tenho um neto...eu...eu tenho um neto...como pode?"

Descontrolada, aproxima-se da filha, toma-a pelos ombros e insiste:

_Eu...eu tenho um neto? Fale!!! Eu estou sonhando? Isso é um pesadelo ou o quê? Fale!

A saliva corre-lhe pelos cantos da boca, encontrando-se com o suor, que vem do alto da cabeça, completamente desorientado.


_Pare!!! Pare com isso, mãe!!! - pede Laura. _Pare, por favor!!! Está me assustando!!!

Gabriel a imobiliza pelas costas e tenta, apesar de também surpreso com a notícia, mantê-la ainda presente a este mundo, ancorada à condição de um ser pensante.

Aura descompassada atravessa o local, toca as árvores, que agitadas, soltam folhas que se perdem no espaço, sem rumo. Laura abraça o irmão, enquanto a mãe, desvairada, conversa consigo mesma, como se houvesse alguém à sua frente, ouvindo suas dores.


_Eu tenho um neto? É isso? Eu tenho um neto! Ele me deixou um neto! Um neto! Só meu! Só meu! Só! – repete diversas vezes, rindo e chorando ao mesmo tempo. Os fios do juízo estavam perto de se partirem! E quem poderia evitar tal tragédia? Nem Freud3 e seus dedicados seguidores! Uma pena!

No íntimo ela sabia, uma criança estava perdida por este mundo, sabe lá com quem e filho de qualquer mulher da rua, pessoas com as quais seu caçula se relacionava e motivo pela qual contraíra o vírus da morte.

Caído ao chão, o diário continha muitas revelações de um rapaz considerado puro, digno de ações maravilhosas que, por algum motivo - talvez uma paixão não correspondida, tenha se desviado para caminhos tortuosos, sem volta.

Remediada a situação, o filho apossa-se do diário e com ele à altura dos olhos, decreta:

_Vou queimar este diário... Apagar os erros que nele estão contidos é a melhor maneira de se evitar mais sofrimento. Deve virar cinzas como seu dono!

_E queimando-o conseguirá extrair da história de nossa família tudo o que nosso irmão cometeu de errado, Gabriel? Conseguirá fazer com que as lágrimas de nossa mãe nunca tenham corrido o chão desta casa? Fará com que esta criança, num passe de mágica, deixe de existir?- pergunta a garota.


_Não sei! Prefiro vê-lo pó, a saber das coisas que nosso irmão cometera. Prefiro o pó a desvendar sua face oculta. Ler o que está aqui seria como devassar, com crueldade, uma história mal resolvida e não temos este direito! Opto por enterrá-lo junto ao seu dono!     
                                                                           

_Não!- determina a mãe, numa voz fina e quase incompreensível._ Ninguém apagará a história de seu irmão... O que ele escreveu, representa, de alguma forma, o que deixou de ser para transformar-se no que teve medo de revelar a todos nós. Ninguém rasga as páginas da vida de uma pessoa e finge que elas nunca existiram, que nunca fizeram parte desse mundo. Vocês não entendem, neste caderninho há explicações para tudo que indagávamos quando ele saía pela noite, sem destino, à procura daquilo que tínhamos medo de saber. Deixe o diário, feche-o, ele nada mais é do que a imagem avariada do irmão de vocês! A explicação do original que nunca deixou de ser um rascunho!

Levantando-se, a mulher se dirige à porta, como se caminhasse para um abismo. De costas para os filhos, deixa a seguinte frase voar pelo quarto:

_Agora só penso em encontrar meu neto!


_Que neto, mãe? Nosso irmão não estava bem! Pode ter escrito isso em um momento de desatino.

_Não diga aquilo que não sabe, Laura!

_Acredita mesmo que ele tenha deixado um herdeiro? – insiste a garota. _ Ele...ele...ele estava alucinado, já não nos via mais como parte de sua família!

_Cale a boca! – grita a mulher, resistindo à ideia da primogênita.

_Você não tem esse direito... ele apenas se perdeu na vida e isso não lhe dá o direito de falar o que bem entende! Sabe o quanto tudo isso tem me machucado? Sabe, menina? Faaale!!!


_Você ainda acredita que ele seja um santo?

_Pare, Laura! – pede Gabriel, comovido com as lágrimas da mãe.

_Santo? E quem disse isso? Ele apenas se perdeu, entenda! E quem somos nós para julgá-lo?

_E se isso acontecesse com um de nós, aqueles que ficaram, agiria do mesmo jeito? Claro que não! Sempre foi egoísta! Só pensava nele! Só! E cá estamos, de novo, todos doentes por conta daquele...daquele imprestável!

_O QUE VOCÊ DISSE? – berra a mulher, pegando-a pelo braço. _ REPITA! FALE!!!

_ELE NÃO PRESTAVA, MÃE!!!

Laura cai ao chão após um tapa.

_Limpe essa boca quando disser algo sobre seu irmão...

_ “Todo mundo é capaz e dominar uma dor, exceto quem a sente”4 – diz a jovem em meio às lágrimas-, não é mãe?            
                                                      
                           
_Deixe-a, mãe! Por favor!!! – pede Gabriel, acudindo a irmã, que nele se apoia para se levantar.

O fio de areia cai rapidamente na ampulheta do tempo...    
 

Fechada em seu quarto, a mãe deixa a cabeça cair sobre os braços. Está letárgica. Ao saber da existência de um neto, teve vontade de gritar - não de dor, mas de alegria -, porque seu filho continua vivo, no sangue de uma criança ainda desconhecida, que vaga por este mundo, à espera da avó que o ajudará a ser alguém na vida.

Mas como encontrá-la? O mundo não é grande o bastante para que passasse séculos e mais séculos atrás dela, sem sucesso? Por onde deveria começar? Bem, ela não sabia, mas tinha uma certeza, poderia passar o tempo que fosse, encontraria esse neto e o acolheria nos braços, com o mesmo carinho com que acolhera todos os seus três filhos – pelo menos é o que pensa.

Pôs-se em pé, foi à janela, avistou a região, arfou e deixou a mente levá-la para um lugar mais calmo, completo pelo desejo intenso de continuar vivendo, acreditando na existência de um Deus, aquele que a auxiliaria na busca pelo tão almejado neto.


Todos os devaneios cessam quando seus olhos avistam, ao norte, a figura sinistra de Paulo, o melhor amigo de seu filho. Parece estar alterado, tomado pela imundície do mundo; de qualquer forma, algo a avisa de que aquele garoto sabe alguma coisa sobre seu neto. Vendo-o sumir entre os becos, grita por ele, no intuito de que parasse, visse-a e voltasse para encontrá-la.

Não tendo êxito na empreitada, a mulher veste as chinelas, passa pelos filhos e desaparece pelos cômodos da casa. Ao chegar à rua, acaba tomada por uma sensação mística... Todos os prédios e casas olham-na como se tentassem impedi-la de prosseguir em seus propósitos e sofrer muitas outras decepções.

Chegando pelas costas, os filhos, amedrontados, perguntam:

_O que há, mãe? Fale, por favor! Aonde pretende ir? Mãe! Fale com a gente! Mããe!

Mesmo cerceada pela inconstância da vida, ela arrisca, passa pelo portão, entra em um mundo desconhecido, devastado pelas drogas, na esperança de que seu neto ainda pudesse ser resgatado da dor e da tragédia em que, sabe-se lá o porquê, estaria inserido.

Corre, corre, até suas pernas já não mais a obedecerem. Quando Paulo passa diante de seus olhos, agarra-o, brutalmente, pelas costas.

Ao virar-se para ver quem o impedia de prosseguir em seu confuso destino, o rapaz pergunta, num misto de surpresa e desespero:

_Do-dona Joana...mas...mas...o que há?

_Onde está meu neto, Paulo?- pergunta a mulher, com os lábios tomados pelo pânico.
 
 __________                                                     
 
3.Sigmund Schlomo Freud foi um médico neurologista e psiquiatra criador da psicanálise

 4 Frase de Willian Shakespeare, tido como o maior escritor do idioma inglês e o mais influente dramaturgo do mundo. É chamado frequentemente de poeta nacional da Inglaterra e de o "Bardo de Avon".
 
 
 
V

Paulo não consegue dizer nada diante do susto que sentira ao ver a mãe de seu melhor amigo, naquele descontrole, questioná-lo sobre um suposto neto.

_Onde está meu neto, Paulo? Por favor, diga!

Com os olhos marejados, a mulher o prensa contra a parede, suplicando pela resposta. O rapaz, ainda que comovido, continua emudecido, talvez porque estivesse sob o efeito de algum entorpecente.

_Por favor, Paulo!!! Aquiete a dor do coração desta mãe!!!

Não suportando a tensão, ela desliza pelo corpo do rapaz até encontrar o chão.

_Que neto, dona Joana? Do que está falando?- arrisca o jovem.

_Que eu saiba, não há neto algum...


_Meu filho disse... - um misto de soluço e tosse interrompe a pobre mulher, que tenta, ainda que com as forças esvaecidas, manter viva a imagem, a presença e as lembranças de um jovem que o mundo lhe tirou. A muito custo, dá sequência ao diálogo: _ Meu filho disse que seria pai... Eu li em seu diário!!! Ajude-me, Paulo, por favor! Diga, onde está meu neto? Fale! Eu lhe imploro! Sei que pode me ajudar... eu sinto!

Assistindo-a de uma distância considerável, os dois filhos não têm coragem de se aproximarem e salvá-la daquele momento tão difícil. Optam por retornar a casa.

Paulo pega a mulher pelos ombros e a levanta, dizendo:


_Sinto não poder fazer nada pela senhora. Como disse, não sei do que fala. Vá para a casa e esqueça tudo isso, na certa, pregaram-lhe uma peça de mau gosto.

_Meu filho escreveu...

_E deve ter escrito tantas outras coisas, mas ele não estava bem... Nós temos alguns momentos de lucidez e muitos outros de loucura! Acredite! Certamente ele estava “viajando” quando escreveu isso!

_VOCÊ CHAMA MEU FILHO DE MENTIROSO, RAPAZ?- Volta-se, com ira, à figura magra e pálida do viciado.

_Não! – titubeia.

_Saia de perto de mim! Alguém que chama um filho meu de mentiroso não é uma pessoa confiável! Saia de perto de mim! Saia! Saaaia!

_Do-dona Jo-Joana...

_Saia!!! Saia daqui, saia!!!

_Me perdoe!

A mulher vira-lhe as costas, mordendo os lábios, numa tentativa desesperada de conter o choro que insiste em macular sua alma. Desconcertada, segue pela calçada suja do bairro, sendo acompanhada pelos olhos arregalados e opacos do jovem e condenado rapaz.

Ao entrar em casa, Joana avista os dois filhos, em pé, de malas feitas, com o diário em mãos. Não entendendo a situação, a mulher respira fundo até encher os pulmões, para arriscar em seguida:

_O que há aqui? O que são essas malas? E o que fazem com o diário de Bruno nas mãos?
 
VI

_Estamos indo embora, mãe!- responde a filha, numa voz quase inaudível.

_Em-embora...? Como assim?


_Estamos cansados de tudo isso... Bruno morreu e não queremos morrer com ele. Sentimos muito sua perda, mas não podemos deixar de viver, acreditar no futuro, porque ele se foi... Nós também o amamos muito, mas ele se foi! Hoje se encontra melhor do que antes. Entenda-nos, mãe! Não queremos mais sofrer, nos deixe ir; queremos poder voltar a sorrir, namorar, sonhar com uma vida mais feliz, ter nossos próprios filhos... Por favor! Perdoe-nos, não aguentamos mais... - desabafa o rapaz, a cópia fiel da mulher que um dia existiu e que, por infortúnio do destino, aparentava não mais se encontrar neste mundo.

A história da vida de Joana, como por magia, corre-lhe diante dos olhos... Vê-se pequena, no colo do pai que amava; na escola, diante da primeira professora; no velório da mãe; no altar, junto ao homem que havia escolhido para viver até os últimos dias e que o divórcio levara; no hospital, ao lado do filho que partia, vítima da Aids; no momento em que encontrou o diário e quando viu Bruno novamente, naquele terreno, com sua bola na mão.
Pela primeira vez, percebe o quanto está errada e o quanto fez sofrer seus outros filhos, que, por erro seu, exclusivamente seu, agora partem.

Todo este tempo, ela tentou manter Bruno vivo de alguma forma, ainda que matando aqueles que também tanto a amam. Deveria corrigir todos os erros, ter seus filhos novamente debaixo de suas asas, amá-los como antes; Bruno não estava mais aqui, mas um lugar de luxo em seu coração a ele estaria reservado para sempre.

_Mãe...- pergunta a filha - o que há???

_Deem-me este diário...- pede a mulher, num ar de serenidade, há muito não visto.

_O que fará?- pergunta o filho.


_O que eu deveria ter feito há muito tempo. Vamos, entreguem-me este diário.

_Pense no que irá fazer mãe, para que não se arrependa...- aconselha a garota.

_Não há arrependimento que sobreviva ao que eu fiz com vocês.

O rapaz lhe entrega a “história de Bruno”. Cabisbaixa, ela dá três passos em direção à cozinha. Ainda de costas, pede:

_Guardem suas coisas, o sofrimento terminou!

Os dois se olham e não conseguem chegar a uma resposta, pelo menos racional, à mudança súbita daquela que tanto amam. Abrindo a porta que dava para o quintal, a mulher olha o céu e deixa o vento levar muitos pedidos de desculpas ao falecido filho, pelo que iria fazer. Abre a lata de lixo e vai rasgando, em pedacinhos, cada folha daquele que fora, por intermináveis dias, o seu único companheiro.

Testemunhas daquela cena sofrível, os filhos choram. A neblina que havia pousado sobre a casa cede, enfim, aos raios solares e à paz, que de maneira ousada, invadem o local.

_Perdão pelo que lhes fiz!- suplica a mulher, ainda de costas, enquanto rasga as páginas._Não conseguia perceber quanto mal lhes fazia com a paranoia que, sei lá porque, insistia em manter... Eu estava cega, queria apenas que o irmão de vocês não morresse e, de maneira inconsciente, quase matei a todos nós. Desculpem-me! Quando vi as malas na sala, senti a mão de Deus pesando sobre mim! Por instantes, toda a minha vida correu diante dos olhos... Quantas alegrias, quantas tristezas! Foi o choque que precisava para voltar a mim, reencontrar-me no tempo e no espaço, interpretar novamente o papel de mãe, compartilhar do amor de vocês. Não existe mais Bruno, pelo menos não neste mundo; não existe mais neto, se é que um dia existira; não existe mais diário, tristeza; mas há vocês, a quem amo em demasia, e que não quero perder jamais.

Ateia fogo ao diário.

_Mãe, por que faz isso? Mãe... - grita Gabriel.

_Você tinha razão, meu filho, deveríamos tê-lo queimado há muito.

_Não faça isso, a senhora vai se arrepender! – alerta a jovem.

_ Não! Não vou!

_E como tem tanta certeza? – inquire Gabriel, meio perdido.

_ As sombras de um passado devem ser enterradas junto ao seu autor.

O fogo cresce e atinge o céu.

_E a criança? Como a encontrará? – pergunta Laura.

_O filho de Bruno, mãe, lembra-se? – insiste Gabriel.

A mulher emudece.

_Só o diário poderia lhe responder estas perguntas... agora...
Virando-se para os dois, diz, em meios às lágrimas:

_Não sei o que dizer! Mas sinto que foi o certo a se fazer – desabafa, com os olhos reluzindo em meio a um alívio que nascia na alma e tomava seu corpo._ Vocês me perdoam?

Os dois correm para os braços da mulher. E choram. Choram de causar dó!

E, aos poucos, a paz volta a pairar sobre a reconciliada família.


Sombras de um passado
Remake de “Diário de um aidético”, escrito por Carlos Rogério Lima da Mota em 2005, e publicado em diversos sites de literatura da internet, entre eles, Usina das Letras e Recanto das Letras.
 
 
 
Carlos Mota
Enviado por Carlos Mota em 13/07/2020
Alterado em 13/07/2020
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